1 de fev de 2009

ANHANGABAÚ

Povos de São Paulo, tribos do mundo

Nei Schimada

Eu sempre costumo dizer que o centro histórico de São Paulo era meu quintal porque quando ganhei minha primeira bicicleta, morava no centro e cruzava suas ruas como se fossem minha vila, meu playmobil.

Meus companheiros de bike eram o Cláudio e o Mauricio. Final dos anos 70, a grande aventura era irmos ao Ibirapuera, voltar empurrando, subindo a rua Augusta desde a Estados Unidos e comer na pizzaria rodízio do Grupo Sergio, um marco da época.

Mas quando não havia dinheiro nem energia para tanto, íamos ao Mappin - imensa loja de departamentos que havia ao lado do Teatro Municipal - para ver as novidades, os brinquedos que deixavam expostos para nossa diversão.

Nos dias de muito calor, molhávamos os pés na fonte da Praça Ramos de Azevedo junto com os moleques lavadores de carros, a pré-história dos limpa vidros. Acreditem, o mundo infantil já foi inocente no centro de São Paulo.

Às vezes, parava no meio do Viaduto do Chá e ficava olhando o Vale do Anhangabaú. Não era a praça que é hoje. No cruzamento com a Avenida São João, havia um túnel mais curto que o atual cujo apelido era "O Buraco do Adhemar", uma piada sobre o ex-governador Adhemar de Barros - o primeiro adepto do "rouba, mas faz", uma triste e eterna tradição em nossas plagas.

O avo do Mauricio nos contava que ali embaixo passava um rio e que na beira desse rio os índios enterravam seus mortos. Aquele era um lugar sagrado, ele dizia, e eu fiquei olhando preocupado com os fantasmas dos índios com tantos carros e ônibus fazendo aquela barulheira danada, indo e vindo incessantemente. Não sabia muito bem o significado do que era sagrado, mas sabia que não deviam fazer tanto barulho em lugares assim.

Além da fonte da Praça Ramos, mais três coisas nos atraiam ao Anhangabaú. A primeira era a porta automática do Banco de Boston, talvez a primeira em São Paulo.

Passávamos correndo de bicicleta em frente para acionar o sensor de abre-e-fecha. E fazíamos com tal distância e ritmo que esperávamos a porta fechar para passar o próximo e abri-la novamente. Os seguranças do banco ficavam em polvorosa.

A segunda coisa era a recém inaugurada passarela de pedestres sob o Viaduto do Chá. Ficávamos ali para cuspir nos vidros dos carros que passavam embaixo. Também havia uma técnica de tempo e distância para acertar os vidros. O Cláudio era bom nisso.

E, finalmente, acorrentávamos as bicicletas umas nas outras na cerca de proteção da passarela e subíamos as imensas escadas rolante da Praça do Patriarca, onde havia uma réplica em bronze do Moises de Michelangelo, aquele da história do “Parla!”.

Dizem que Michelangelo ficou tão estupefato com sua obra que achou que pudesse ter vida, golpeou com o martelo e pediu que falasse. Na creio que Moises tenha respondido. O que me impressionava naquela estatua era o tamanho do pé e os chifres. Porque aquele homem pezudo tinha chifres?

Íamos ali para grudar os narizes nas vitrines da Casa Fretin, esquina da rua São Bento com rua da Quitanda. Ver os microscópios, tubos de ensaio, equipamentos de laboratório, pernas, braços mecânicos e aparelhos médicos e odontológicos. Todos tão limpos, higiênicos, frágeis, e aqueles atendentes com aventais brancos como se fossem os médicos dos médicos.

Depois descíamos escorregando pelo vão das escadas rolantes até as bicicletas e todos os dias eram um dia de domingo.

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros




Fotos: Flaviana Serafim e Gladstone Barreto

5 comentários:

  1. Nei, que crônica linda!
    Sinto muita saudade de Sampa, morei lá de 92 a 96.
    Gostei muito do blog, voltarei sempre.
    Beijos a todos.

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  2. Continuo percorrendo essas ruas, Nei. A cada ida pra lá. Há mais de 20 anos. Mesmo que tentem me deter pelo braço, não resisto à chamada da floresta de cimentos. O coração bate é mesmo no centro velho de São Paulo. É lá que a gente reconhece o aconchego do ventre da cidade, não tem jeito. Beijos, LuMa

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  3. nen sei como pode acontecer,mas a cidade de Palmeira dos Indios-Alagoas,está passando por um momento dificil,alguem tem que nos ajudar,pois a tal (GRIPE A)parece que chegou aqui,por favor você da saúde faça palestras,ajude,vamos nos unir contra essa doença que está acabando com a população.Onde está a saúde do nosso País?Onde estão os nossos representantes,isso é uma vergonha.

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  4. Meu Deus,as vezes olho para o céu e me pergunto, para que tanta violência?Porque tantas doenças que nem se sabe o que é.O que foi feito dos homens(de uma forma em geral),Não acredita mais no SENHOR,por favor gente ELE é o SALVADOR,o nosso CRIADOR,JESUS É PAZ,AMOR,SOLIDARIEDADE,AFETO,UNIÃO,para todas as raças,JESUS É A VIDA.Tenham fé.

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  5. Caro (a) Anônimo (a).
    Como você está em Alagoas, o melhor é fazer contato com as secretarias municipal e estadual de Saúde aí da sua localidade. Eles é que têm que tomar alguma providência.

    Você também pode acessar o site do Ministério da Saúde, onde há diversas orientações sobre a gripe suína. O site é http://portal.saude.gov.br/saude/

    Um abraço e obrigado por ter acessado nosso blog.

    Flaviana Serafim e Gladstone Barreto

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