23 de fev de 2009

JANELA DE COZINHA

Povos de São Paulo, tribos do mundo

Por Nei Schimada

Não sei quem me falou que a gente pensa de tudo enquanto lava a louça. Acho que foi o seu Laerte da mecânica. O seu Laerte tem sempre uma história pra contar. Devia ser escritor ou coisa assim.

Olha a exibida do prédio em frente com o carro novo. O moço da portaria sorri até diferente. Onde será que ela vai todo dia nessa mesma hora da manhã? E toda emperiquitada? Mas o carro é muito feio, coitado.

Perguntei pro meu marido que carro era aquele e ele disse que era desses importados japoneses caríssimos. É, o carro tem mesmo uma cara de Jaspion, parece desses robozinhos do meu filho. O meu golzinho anda bem e eu não reclamo. Roubaram o som quando deixei naquele shopping perto da Radial.

Também, olha onde fui inventar de comprar daquela sandalinha linda que aparece na propaganda da revista. “Vai lá que tem do genérico e e' baratinho”, disse minha cunhada. Me ferrei, comprei um número maior, fico passeando dentro da sandália. Depois daquela chuva ela está descascando a tinta da tirinha aqui de cima e me roubaram o som.

Nunca mais vou pra aqueles lados. Só no cemitério da Quarta Parada pra ver o meu falecido sogro...que deus o tenha, pobre homem. Agora, a megera da mulher dele tá ai, vivinha, duas quadras daqui. Daqui a pouco ela aparece pra ver se a casa tá arrumada. Nojenta...

Preciso compra outra frigideira T-fal, essa já tá grudando até omelete. Mais flores pra Malu do salão? Mas ela anda muito saidinha! Depois passo lá pra saber mais desse viúvo rico que ela arrumou. Qualquer dia chega uma coroa de flores e o testamento com tudo pra ela. Ela larga o salão e quem vai fazer minha escova?
Só ela acerta o jeito que eu gosto. E tem a Cinira que faz minha unha e é a única manicure que conheço que tem uma estufinha pra esterilizar os cortadores. Tão limpinha.

Ai meu deus! Já disse pro Duda que pode bater as vitaminas dele, mas depois enche o copo do liquidificador com água... Que saco, preciso pôr esse menino na linha. Amanhã, eu e o Roberto, a gente faz quinze anos. Ele prometeu que a gente vai sábado naquele restaurante perto do Museu do Ipiranga, como da primeira vez. Será que ele ainda existe? A gente foi lá mais umas duas vezes e parecia tão decadente. Eu, Roberto e o Duda.

O Duda precisa melhorar a nota de matemática esse mês senão bau bau férias. Eu queria tanto ir para a casa de praia do irmão do sócio do Roberto. Praia Grande é tudo de bom....

Pronto, acabei! Agora arrumar as camas e dar uma passadinha no mercado pra comprar filtro de café. Amanhã a Dinalva vem e preciso pedir um cheque pro Roberto, não posso esquecer.

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros

Um comentário:

  1. Quando morávamos na Chapada Diamantina, nossa janela tinha vista para um quintal cheio de verde, em frente ao pé de araçá com as galinhas da vizinhança sassaricando pra todo lado.
    Quando estávamos lá, pensávamos na cozinha daqui, em solo paulistano. Agora, nossa cozinha também não tem janela. Se tivesse, seria com vista pro tanque de plástico da micro área de serviço...
    E agora, lavamos a louça pensando no nosso pé araçá, há 2 mil quilômetros de distância...

    Bom ter tuas colaborações aqui...

    Glads e Fla

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