28 de fev de 2009

NA CIDADE QUE NINGUÉM QUER VER...

SOS São Paulo - A cidade em nossas mãos

...Voluntários garantem almoço de domingo a 1.100 moradores de rua

Domingo nas proximidades do Largo do Arouche é agitado. Dia
de feira na rua das Palmeiras, gente entrando e saindo dos supermercados, sacolas cheias e o almoço garantido, em família ou não.

Em meio ao vai e vem, chama a atenção a multidão de sem teto, mendigos, moradores de rua e outros que perambulam sob o Elevado Costa e Silva, o "Minhocão". Centenas e centenas, entre os milhares de moradores de rua do centro paulistano, vem à região para colher os restos da feira depois das 14h00.

Mas antes, por volta de 11h00, esse moradores do mundo se concentram na rua Dr. Frederico Steigel, entre os largos do Arouche e Santa Cecília, na expectativa de também degustar o almoço de domingo - que é para muitos é o único prato de comida digno daquela semana.

Graças ao trabalho voluntário e a união de um grupo de amigos, pelo menos 1.100 moradores de rua recebem, todo 3º domingo do mês, um "marmitex" improvisado numa caixa de leite, cortada de forma a criar uma tampa e manter o alimento quente.

Quem lidera a iniciativa é Aparecido Ramiro Pinto, um senhor bonachão e bem humorado que já passou dos 60 anos e há 12 anos se dedica a este trabalho. Arroz, feijão, macarrão, carne cozida, linguiça, farofa, legumes, tudo organizado previamente com apoio de 70 pessoas.

Na longa fila dos sem teto, sem comida, sem nome, misturam-se carrinhos de sucata, cachorros, crianças, muletas, sacolas, cobertores. Andarilhos esfarrapados e velhos de guerra das ruas paulistanas, ao lado das crianças e jovens tragados pelo cachimbo do crack.

Ou ainda famílias inteiras que perderam suas casas por conta de uma enchente, desemprego, alcoolismo, violência, abandono...

Naquele espaço se reúnem centenas de pessoas que cruzam nossos caminhos diariamente. Cidadãos pra quem olhamos, mas não vemos... Para livrarmos nossa culpa, muitos de nós classificamos esse tipo de iniciativa de "as
sistencialismo" em que se "dá o peixe sem ensinar a pescar". Mas como "pescar" algo melhor para as próprias vidas, se esse moradores de rua mal tem condições de parar em pé?

A equipe do São Paulo Urgente acompanhou o trabalho voluntário coordenado pelo Sr. Aparecido Ramiro Pinto (na foto ao lado), em parceria com um grupo de amigos da Igreja de São Francisco de Assis, no Jardim Jaraguá (zona oeste). São pessoas que olham, veem os moradores de rua e tem coragem de agir para e algo mude. Não viram o rosto para o outro lado como a maioria de nós fazemos.

Clique nas imagens para ampliar ou acesse o álbum SOS São Paulo no FLICKR.

São Paulo Urgente - O senhor vem de onde até o Largo do Arouche para distribuir alimento aos moradores de rua?

Aparecido Ramiro Pinto - Somos do Jardim Jaraguá, da Igreja de Pirituba. É uma união de amigos que ajudam. O povo se reúne, um dá R$ 100,00, outro dá R$ 50,00, tem duas, três empresas que participam, outro dá R$ 500,00. Um movimento deste aqui (mais de mil pessoas) faz com R$ 1.300 mil a cada vinda para distribuição de alimentos. Fora umas trinta, quarenta famílias que nós ajudamos graças a esta união formiguinhas.

SPU - Desde quando vocês distribuem comida nas proximidades do Terminal Amaral Gurguel?
Ramiro - Desde 1997. Começou do outro lado, em frente da Igreja Santa Cecília. Aí viemos rodeando, depois foi para debaixo da ponte e o metrô levou todo mundo embora. Então, nós ficamos aqui nesse pedacinho que sobrou para nós.

SPU - E qu
em começou com esta iniciativa?

Ramiro - Outros abandonaram a idéia e nós viemos substituí-los. Essa missão não é fácil, tem que ter o coração voltado à causa e muita compreensão, caso contrário não trabalha. Nós tivemos a sorte de ter uma equipe de amigos que está junto até hoje. Essas mulheres são cozinheiras. Trabalham mais de 70 pessoas para acontecer tudo. A comida é entregue na caixa de leite que mantém a comida quente.

É um trabalho formiguinha, mas é muito gratificante. Alguém tem que arregaçar a manga e tomar a frente, dirigir. Deus escolheu, nos colocou nisto até hoje. Faz 12 anos agora, em março de 2009. Já distribuímos marmita para 1.400 pessoas em cada domingo.

SPU - O número de moradores de rua de São Paulo é enorme. Enquanto tiver comida, tem mais gente chegando...

Ramiro - Se você ficar aqui o dia inteiro, tem gente o dia inteiro. Se vier a tarde, tem gente novamente. À noite a mesma coisa, tem muita gente na cidade. As igrejas aqui ajudam muito, e tem outras associações que atuam durante a semana.

Nós distribuíamos almoço em domingos alternados, um sim, outro não. Aí foram entrando outras igrejas e nós agora estamos nas proximidades do Terminal Amaral Gurgel todo terceiro domingo do mês. Tem outras entidades que doam em outros dias... Tem muita gente que doa aqui no centro.

Caso contrário, os moradores de rua não viveriam com um dia só de comida por mês. Mas este momento aqui é acolhedor e é gratificante porque sobrou para nós este dia. Então, louvamos a Deus por isto.

Em doze anos que estamos aqui nunca tivemos visita, mas é muito bom. Pode ter certeza que nossos irmãos aí tem méritos, eles merecem ser felizes. E a comidinha que eles comem , não é para falar não, mas nem o Lula come um feijãozinho igual a eles.

SPU - Quem quiser ajudar, ser voluntário, conhecer o trabalho ou fazer doação, como pode contatar o grupo de vocês?

Ramiro - Pode fazer contato comigo pelo telefone (11) 3904-4042. Até hoje, com a graça de Deus, nunca faltou nada. As pessoas tem sido maravilhosas. De pouquinho em pouquinho nós fazemos a nossa parte. Costumo dizer que um quilo de sal é valioso porque senão a carne não tem gosto. Este é gosto do amor, do amor de Deus que mandou amar o nosso próximo

Temos que amá-los, zelar por eles e lutar por eles. Eu gosto muito deste povo e gosto do povo que trabalha com a gente. Agora temos nosso próprio caminhãozinho. Antigamente vinham de oito ou dez carros para trazer a comida, mas ainda hoje, com caminhão, viemos todos juntos.

Sempre tem que ter a linha de frente em tudo que você faz. No mais, o comando é divino, e eu sou muito feliz, não me preocupo com meu domingo. Troco tudo por ver um sorriso feliz.

Se um dia quiser nos visitar, a cozinha é simples, mas se chegar lá antes da entrega do domingo, encontrará 30, 40 pessoas, da Igreja São Francisco de Assis do Jardim Jaraguá.

Quarenta por cento da comida é feita nas casas e vamos buscar para depois montar nas marmitas. O que eu posso dizer a vocês que vale a pena lutar pelo irmão menos favorecido, não adianta deixar tudo por conta do governo. Para mim estar aqui é melhor que estar num churrasco. Nós vamos embora, e muitos deles ficam embaixo da ponte.

Texto: Flaviana Serafim/Fotos: Gladstone Barreto

6 comentários:

  1. Não basta dar, tem que educar. Sem contar a imundice que fica a cidade, pois não é feito nenhum trabalho com essas pessoas, para que se alimentem, mas não emporcalhem a cidade.

    Já dizia um velho ditado: dar a vara de pescar e ensinar a pegar o peixe

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  2. OLá, Flaviana e Gladstone, parabéns pelo blog, está muito interessante e diversificado. Um espelho realista e bem humorado de nossa cidade, tá bem paulista, meu! rsrs. Grande abraço.

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  3. Como fazer segurar a vara de pescar em mãos tremulas com fome e frio e que não se lembra nem o que é um peixe. Que é a quarta ou quinta geração de miséria...E que não teve nenhuma orientação, educação, e a única preocupação do ser humano anônimo alí é a limpeza da Cidade. Muito justo até, a cidade tem que ser limpa, mas não com discursos separatistas nazi-facistas escondidas por medo ou vergonha atraz do anonimato. Deixe as máscaras do anonimato para quem precisa delas, meu caro anônimo...

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  4. Damos o que temos de melhor. Lindo trabalho.
    Alguém pode me dizer como faço para participar desse ou de outro trabalho voluntário?
    Obrigada, Bianca

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  5. Bianca, se você quiser integrar o grupo de voluntários desse trabalho, pode contatar diretamente o Sr. Ramiro Aparecido no telefone (11) 7833-6258. Parabéns pela iniciativa!

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  6. ESQUECERAM DE MOSTRAR AS FOTO DO LIXO QUE FICAM AS RUAS APÓS ESTA DISTRIBUIÇÃO DE COMIDA... SEM CONTAR QUE A DISTRIBUIÇÃO ACABA ATRAINDO MAIS E MAIS MORADORES DE RUA PARA A REGIÃO, QUE ACABAM FICANDO POR ALI DORMINDO PELAS CALÇADAS, FAZENDO SUAS NECESSIDADES NOS CANTOS (URINANDO E DEFECANDO), ASSALTANDO, FUMANDO CRAQUE E JOGANDO AS CAIXAS DE LEITE E RESTOS DE COMIDA NAS RUAS QUE FICAM NOJENTAS... DA PRÓXIMA VEZ POSTEM ESTAS FOTOS OU DISTRIBUAM A COMIDA NA PORTA DE SUAS CASAS....

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