14 de abr de 2010

PARADINHA PARA MANUTENÇÃO…

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7 de abr de 2010

A LINHA-VERDE DO METRÔ É ACESSÍVEL MESMO?

Povos de São Paulo, tribos do mundo

Em vista de uma proposta de participar de uma seleção de emprego numa empLeonardo Feder. Foto: David Federresa localizada quase na esquina da Rua Augusta com a alameda Santos, resolvi fazer o trajeto da minha casa, na R. Tomás Carvalhal (Paraíso), até lá, na cadeira de rodas, acompanhado de meu pai e irmã. Como não poderia ir trabalhar de táxi acessível - caso contrário, gastaria todo o salário -, fui conferir se era viável chegar lá através das estações da linha-verde do Metrô. Segundo constava, elas já tinham sido acessibilizadas pelo governo estadual de José Serra, com o programa “Expansão São Paulo”, iniciado em 2007 e com término previsto para final de 2010.

Era a primeira vez que me aventurava a, efetivamente, andar no metrô de São Paulo na cadeira de rodas – até então, meu único contato com o subterrâneo da cidade fora ao visitar algumas estações em obras, em 2008, quando fui trainee da Folha de S.Paulo.

Fomos de casa até a avenida Paulista, na quarta-feira (24/03/2010), às 18h, num final de tarde ameno. Vivi as dificuldades extremas de acessibilidade nas calçadas já relatadas no post CAMINHO TORTUOSO ATÉ A PAULISTA (21/10/2009) – nesse meio-tempo, nada se alterou.

Como o metrô da estação Paraíso (no mapa, letra A) estava em reforma para ser adaptado, pegamos o da Brigadeiro, 1.000m depois. Pensava que, deixado no início da avenida Paulista, poderia seguir só.

Engano. Para descer da superfície até o mezanino e deste à plataforma, é necessário pegar dois elevadores, cujos botões estão na altura do braço levantado de um cadeirante. Como não tenho força para esse movimento, não poderia ir só, apenas com um acompanhante (e por que não dois?), mas burlamos e fomos os três. Propaga-se que há sempre funcionários para ajudar. “Coincidentemente”, na minha vez, não havia. Provo isso por essa constatação: ninguém veio pegar os bilhetes que compramos. Simplesmente descemos o elevador, sem sermos fiscalizados.

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Na plataforma de embarque, meu pai empinou levemente a cadeira para entrar no vagão, superando o pequeno vão que há entre o solo e o metrô. Alguém me garante que, se eu estiver sozinho, não há risco nenhum do pneu pequeno da frente da cadeira enganchar nesse buraco? Reafirmo que não havia nenhum funcionário supervisionando.

Dentro do vagão, meu pai, por precaução, segurava a cadeira. Não sei se havia algum risco se a deixasse solta; a princípio, acho que não, mas nunca fomos informados sobre isso, há estudos de segurança?

Descemos na estação Consolação. Para sair, devíamos passar por uma porta com uma barreira tampando a frente de um local aos pedaços, com operários reformando e esteiras rolantes desligadas. Isso nos pareceu tão estranho, que, mesmo vendo a placa de saída para deficientes, meu pai foi procurar um responsável. Mas aí um homem explicou a mim e a minha irmã que era lá mesmo; afastamos a barreira, fincada lá por que cargas d’água?, o que sugeria a pífia frequência de cadeirantes. Avisamos meu pai pelo celular e combinamos de nos encontrar na superfície.

Ao subir o elevador e passar por uma porta trancada, só aberta quando apertava um botão (ambos impossíveis de fazer sozinho), eu e minha irmã saímos no cruzamento da avenida Paulista com a rua Consolação (no mapa, letra E), enquanto meu pai aportou no cruzamento com a rua Augusta (no mapa, letra D), pontos 300m distantes.

Leonardo Feder. Foto: David Feder Já com meu pai, passamos pelo Conjunto Nacional e entramos na Livraria Cultura para usar o banheiro adaptado, trancado, cuja chave estava com um segurança. Queria saber quem bola essas ideias...

Visitamos o local da empresa, por ali mesmo, e resolvemos andar 1.000m até a estação Trianon/Masp (no mapa, letra C) para conferir essa estação, mas apresentava o mesmo problema das anteriores.

Esse passeio - que durou duas horas e meia, contando ida e volta -, foi extremamente extenuante com todos esses obstáculos, que me deixaram o tempo todo mobilizado. Se não posso fazer sozinho esse simples e curto trajeto, em que viveria a dinâmica da rua, com sua diversidade de pessoas, restou recusar participar do processo seletivo.

Se há funcionários para ajudar os deficientes no Metrô, como se alega, mas não vimos, significa que não é acessível. Senão, um comércio que disponibilizasse cinco funcionários para subirem um cadeirante por uma escadaria seria chamado de acessível, assim como toda São Paulo.

Termino com uma proposta: que a sociedade se mobilize e se una com os governos para, com um investimento maciço do Orçamento público, São Paulo seja acessibilizada em prédios, estabelecimentos comerciais, transportes e calçadas num período de 6 meses a 1 ano. Para isso, é preciso que seja uma política pública prioritária, o que é justo, visto que deficientes estão sendo cerceados de sua liberdade de ir e vir. Sua presença maciça na rua, através da consciência da diversidade e da cidadania ampla e irrestrita, refletirá numa melhoria, por um efeito cascata, na educação, cultura, saúde e segurança dos paulistanos, e num aumento da riqueza gerada, já que mais deficientes entrarão no mercado de trabalho.

Ou começamos a ter sonhos grandiosos para nossa cidade e a procurar meios para efetivá-los, ou caminharemos a passos lentos.

Leonardo Feder, 24, é jornalista formado pela Universidade de São Paulo e autor do livro “O Enigma do Assassinato das Idosas”.

Saiba mais sobre Leonardo Feder e os posts sobre acessibilidade no São Paulo Urgente:
”SER CADEIRANTE EM SÃO PAULO É UM DESAFIO”
”PESSOA COM DEFICIÊNCIA” NÃO É “DEFICIENTE”
O DESAFIO DE LEONARDO FEDER NAS RUAS DE SÃO PAULO
CAMINHO TORTUOSO ATÉ A PAULISTA