31 de mar de 2010

BERNINI E O BARROCO

Arte & Cultura Floh Murano. Foto: Enrico Castanha

Por Floh Murano*

De acordo com G. C. Argan, Bernini foi o herdeiro da hegemonia cultural que  no século XVI pertencera a Michelangelo.

Gianlorenzo Bernini nasceu em Nápoles em 1598, e na adolescência já mostrava habilidades extraordinárias para as artes. Antes de 1620, Bernini já se destacava como principal escultor em Roma e após a ascensão de Urbano VIII ao poder, ele praticamente dominou a política oficial das artes ligadas ao papado, exercendo poder e influência sobre as questões artísticas de toda a Itália.

Bernini aceitou as liberdades conseguidas pelo maneirismo, contestando as limitações renascentistas que, dentre muitas, estipulava regras severas em relação à forma e à unidade do bloco. Em seus trabalhos, abusava das linhas quebradas promovidas pelos ângulos salientes e, em caso de necessidade, utilizava mais de um bloco de mármore para a execução de seus trabalhos. Isto havia sido inadmissível até então. 

A arte barroca se formara em Roma como solução para os anseios religiosos e políticos que a Igreja assumiu após a fase conturbada da Contra-Reforma. Portanto, o Barroco foi o fenômeno romano que deu vida à imagem persuasiva, poder-se-ia dizer de “propaganda política” que serviu para reafirmar a ideologia católica. Tanto Bernini como os artistas de sua geração serviram como instrumentos políticos de manipulação das emoções e das crenças. Para isto, era preciso mudar o efeito artístico de uma obra em seu expectador, de forma que este fosse chamado à importância da cena retratada. Isto resultou em uma arte magnífica, opulenta, de forte efeito dramático, movimentada, ornamentada e que suplica ostensivamente o foco para si.

No entanto, não esqueçamos que o “girar em torno da estátua” tão característico do período barroco e de seu efeito pictórico, não era uma peculiaridade da obra de Bernini.  Na verdade, as suas obras foram concebidas para serem vistas como a cena de um teatro em seu ponto culminante. De acordo com os escritos de Wittkower sobre Bernini, somente se nos colocarmos numa posição correta (aquela projetada por Bernini) seremos capazes de captar, em toda a sua plenitude, a essência da figura e justificar a sua razão de ser. Além do mais, em um teatro, independenDetalhe arquitetônico da obra A Beata Ludovica Albertoni (1671-1674) de Gianlorenzo Bernini. San Francesco a Ripa, Romatemente da dramaticidade, dos efeitos de luz, e do apelo visual, o expectador não sai dando voltas em torno da cena representada. 

Bernini a cada dia mais se preocupava em orientar o expectador a olhar suas obras do ponto de vista correto e, para isso, utilizava artifícios de enquadramento que indicavam a perspectiva correta da contemplação. Tomemos com exemplo a Beata Ludovica Albertoni, representada em seus últimos instantes de vida. Nesta obra podemos observar que a seqüência de arcos conduz o olhar do expectador ao recesso do altar, e qualquer outro ponto de vista que não seja este comprometerá a integridade da observação da imagem².

Fig. 1 (acima) - Detalhe arquitetônico da obra A Beata Ludovica Albertoni (1671-1674) de Gianlorenzo Bernini. San Francesco a Ripa, Roma.

A Beata Ludovica Albertoni (1671-1674) de Gianlorenzo Bernini. San Francesco a Ripa, RomaFig. 2- A Beata Ludovica Albertoni (1671-1674) de Gianlorenzo Bernini. San Francesco a Ripa, Roma.
Em Beata Ludovica Bernini consegue, através dos efeitos da luz, amplificar a dramaticidade do momento e, devido à intensidade da composição, as cores inexistentes da estátua branca se formam dentro da mente do expectador. O efeito chiaro-scuro, os ziguezagues do panejamento e da própria postura do corpo apelam aos sentidos chamando-nos para dentro do êxtase dos últimos momentos antes da morte. Nesta obra, a combinação da arquitetura, da escultura, da luz e da cor resulta num efeito de pura cenografia.  

BIBLIOGRAFIA
ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão- ensaios Sobre o Barroco. São Paulo: Cia. Das  Letras, 2004.

BORSI, Franco. Bernini architetto. [S.l.]: Electa Mondadori, 1991.

FERRARI, Oreste. Bernini. [S.l.]: Art Dossier, N. 57, [S.d].

MURANO, Ana Flora G. Michelangelo e a Transição na Arte. Trabalho de conclusão de curso com Prof. Dr. Luciano Migliaccio, FAU – USP.

WITTKOWER, Rudolf. A Escultura. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

ZUFFI, Stefano. Il Cinquecento. Milano: Mondadori Electa, 2005.

Leia também:
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FLOH MURANO ESTRÉIA CRÍTICA NA SEÇÃO ARTE & CULTURA

Floh Murano é arquiteta e historiadora da arte

4 comentários:

  1. Marcio Luiz Feitosa31 de março de 2010 12:28

    Uau, a autora também é uma obra de arte...

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  2. MUITO LEGAL FLOH, BJS

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  3. Gustavo Petinati1 de abril de 2010 09:17

    Floh, seus textos são ótimos. Beijos,

    Gus.

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  4. Oi Floh, adorei te ver, melhor te ler. Bjs saudosos.

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