30 de mar de 2009

A GALÁXIA DOS AFÔNICOS

Povos de São Paulo, tribos do mundo
Nei Schimada
Nei Schimada
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- Foi assim que tudo terminou. Todas aquelas campanhas de salvar baleias, salvar Antártica, festa da grande marcha dos pinguins, dia da mulher, Hora do Planeta, as setenta e sete horas de om mani pad me hum, abraços grátis, tudo isso acabou naquele dia. Aliás, começou a acabar quando soltaram aquele spam num servidor em Cuba e, desconfiados como sua profissão assim o exige, os censores do governo castrista filtraram e buscar o IP original.
- A Eva do grito? - perguntou o filho, maravilhado com o brilho dos olhos do pai.
- Na verdade, um Adão. Foi um cara lá da Índia, Havihavi Bahevira que, de brincadeira, chamou num site de relacionamentos uma pequena multidão de cinco mil pessoas para gritarem numa praça em Bombaim e apareceram, veja você, vinte e cinco mil, segundo fontes oficiais. Mas se formos analisar no olhômetro das câmeras pela cidade e da TV, dava pra ver que ali tinham mais de cem mil indianos gritando tudo que tinham direito por dez minutos.
- Só cem mil, pai?
- Veja, filho, começou com um único recado, não mais que isso. Por conta disso, o tal spam chegou em Cuba. De lá para o México e para os cubanos de Miami foi um pulo. Qando chegou na Califórnia, já tinha se espalhado simultâneamente pela Europa e  norte da África. Dois dias depois voltou para a Índia em oitenta e três idiomas diferentes!
- E aqui no Brasil?
- Foi ao mesmo tempo que bateu em Los Angeles, acho. Toda a América do Sul estava sabendo, de Caracas à Terra do Fogo. O mais impressionante é que por aqui foi em pleno carnaval e as pessoas falavam mais nisso do que do próprio carnaval. Foi uma onda de otimismo e esperança que tomou conta do ocidente através de um spam bem intencionado, impressionante. Nunca houve nada igual, tanto que mudou toda forma de manifestação. Aliás, acabou com todas elas, tornaram-se desnecessárias, obsoletas.
- Mesmo chegando na Índia através de oitenta e três idiomas diferentes, porque não entrou na China?
- Pois é, esse é o grande mistério cibernético de tudo isso. Talvez isso tenha acontecido para que eles escutassem e fizessem eco, como de fato aconteceu.
- Continua, pai, continua.
- O spam dizia para sairmos todos no dia 29 de fevereiro do próximo ano e gritarmos palavras desconexas por horas, até ficarmos afônicos, sem voz. Dizia para chamarmos os vizinhos, nos prepararmos para o próximo ano porque nesse dia teria um alinhamento de todos os planetas do sistema solar com a estrela Alfa Centauro, que por si estaria alinhada com OGLE TR 56b, o mais distante planeta extra-solar conhecido na ocasião.
- E era verdade?
- Não sei, filho, não sei. Eu sei que todo mundo se preparou por quase um ano e finalmente, o dia 29 de fevereiro chegou. No spam dizia qual o horário em cada local do planeta, fuso horário, tudo muito bem calculado para que os gritos saíssem juntos. Aqui em São Paulo era uma da tarde e caiu num domingo. A cidade parou. Alguns programas de auditório saíram com suas câmeras para as ruas. Em alguns lugares estavam os políticos com bandas e fanfarras. Shows de rock. Milhões de pessoas espalhadas pela cidade de olho no relógio. 12:59 e a tensão era tão grande que dava para pegá-la no ar. Eu estava no viaduto Santa Efigênia com alguns amigos e havia uma multidão no Vale do Anhagabaú. Ao redor da gente, nas ruas do centro, no Viaduto do Chá, no mundo todo. De repente, o sino da torre da Basílica de São Bento deu um único badalo, era 1:00 da tarde. A gritaria começou. Foi muito mais alucinada que mil anos de carnavais, que todas as festas e todas as raves e todos Woodstocks e Iacangas e Diretas-Já. As pessoas gritavam as coisas mais estapafúrdias impossíveis. Gritamos por três horas até perdemos a voz. Eu ouvia os gritos vindos de Machu Picchu, Oslo, Madrid, Curitiba, Nova Iorque, Quebec, Havana e sabia que eles me ouviam. Lá pelas cinco da tarde, começou outra gritaria, distante, tão imperfeitamente absurda quanto a nossa. Eram os chineses respondendo. Durou outras tantas horas. Aquele som estava em todos os lugares do planeta, entende? Tudo vibrava! O mundo parecia um grande e afinadíssimo diapasão! O som estava nas roupas, no ar, nas paredes, nas pessoas, nos bichos, árvores, móveis, cérebros. Aos poucos foi acabando, sumindo. Já era noite e todo o planeta estava afônico, sem voz. E então, à meia-noite em ponto um grito foi escutado por todo planeta ao mesmo tempo. Em todos os computadores do mundo entrou o mesmo e-mail; TVS, todos os meios de comunicação emitiram a mesma coisa que a voz nítida como nunca se ouviu, vinda do céu e dizia:
- SILÊNCIO!
E nunca mais nenhum ser humano falou, cantou, grunhiu. Por isso nunca mais houve qualquer manifestação pública, passeatas, campanhas, discursos vazios, demagogias. Isso também aconteceu porque agora nos comunicamos através do pensamento, o que facilitou soberbamente para que as pessoas não se agredissem mais, nem os países, os povos. As diferenças foram ajustadas por telepatia. No final das contas, ironicamente, conseguimos as coisas na base do grito. - Mas pai, e essa voz vinda do céu?
- Filho, tem coisa que não se explica, nem se entende. Apenas saiba que.

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros. Leia mais em: 
NATSUKASHI
SILÊNCIOS
O PATO
JANELA DE COZINHA
LA MISTICA, CAPISCI?
ESPERANDO ROSA
ANHANGABAÚ
FELIZ ANIVERSÁRIO, MINHA TERRA

3 comentários:

  1. Mundo Louco de doer...

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  2. Eu em...Não quero esta era para mim não...

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  3. Genteeeee, é muito louco esse processo!!! Imagine se pega!!! E tudo na base do silêncio,impressionante!!! Eu adoraria ver os falso-moralistas,os politiqueiros, os fascistas, os pregadores religiosos todos, todos, perdendo seu lugarzinho ao sol da demagogia verborréica!!! Isso, sim, seria um verdadeiro milagre divino!!! um forte abraço, Nei!!! Fui...
    the Osmar

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