20 de abr de 2009

QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ

Povos de São Paulo, tribos do mundo

Por Nei Schimada*

Nunca fui de praticar esporte nenhum. Gosto de sofá, controle remoto e um filme atrás do outro. Ou mesmo futeboHamamatsu shi - Japão. Foto: Nei Schimadal. Sou um esportista teórico.

Fiz meus gols na adolescência, alguns antológicos que só eu lembro e mais ninguém. Já fiz gol de bicicleta, de peixinho e sem-pulo, um de cada. Os outros, pouquíssimos, na casa das dezenas, redundantes gols genéricos em quadras, campos e muitos, quase todos, no futebol de rua ali na Rua Miguel Carlos, uma rua curta e larga paralela à avenida Senador Queirós, perto do Mercadão.

Como tudo que cultivo desde moleque, sempre transporto as formas da vida para que tenham uma cara artística, moldada na sensibilidade em cores, notas, palavras, movimentos, que seja. É uma tendência pessoal. Por isso, até mesmo o futebol de rua da Miguel Carlos virou arte. Arte suja e podre, mas muita arte, de pintar o sete.

Numa tarde de domingo modorrenta e tediosa, s ó preenchida pelo futebol, entrei numa dividida com o Léo, um garoto ruim de bola e de pé extremamente duro. A bola foi, meu pé ficou e ele chegou forte. Caí, retorci de dor e não era encenação.

Fiquei um mês engessado, tornozelo torcido, imóvel, eu e duas muletas inseparáveis. Fui até num show de uma banda de funk soul instrumental no MASP. Suingando com duas muletas, bro. Nunca mais joguei futebol com a  mesma disposição. Disposição, não leveza e virtuose. É diferente.

Como nunca achei graça em outro esporte coletivo além do association, parei de fazer coisas que suassem. Basquete, não. Volei, nem pensar. Handebol, o que é isso?

Aliás, correr por correr, não vejo graça até hoje. Não tem uma bola na frente, nem uma baliza para encerrar oHamamatsu shi - Japão. Foto: Nei Schimada assunto.

Nessa época do acidente com o Léo, que seguiu carreira militar - pelas contas deve ser um jovem oficial hoje em dia - o Bado veio morar no bairro. O Bado é uma das figuras mais punks do mundo. Montamos uma banda punk rock homenageando o futebol da rua de trás: Miguel e Seus Ex.

Essa é a explicação para o nome dessa banda que também só é inesquecível para quem tocou nela: Pirulão, Grego, Tony, Lennon, Bado e eu, éramos os Miguel e Seus Ex.

II

A banda acabou, o Collor chegou e meses depois do confisco eu estava desembarcando aqui no Japão. Estou há 18 anos nesse vai e vem entre dois hemisférios. Cheguei até a jogar um futebolzinho chinfrim com outros compatriotas nessas plagas. Eu acho que  era mais uma necessidade de criar um fator de identificação com o Brasil lá longe do que querer praticar um esporte, a coisa de suar.

Desisti. Os brasileiros que jogam futebol - para se divertir! - por aqui são muito "profissionais". É a coisa da identificação mesmo. O prazer do gol, da vitória, da derrota, da cerveja e do sarro não existem. O que existe é um bando de cara chato metido a boleiro. Puá.

Mas, pasmem, de um mês para cá resolvi caminhar.

Então é assim, acordo uma hora mais cedo - às cinco e meia - e vou pra rua sem nem pensar, porque se pensar, fico. Claro, levo a câmera, sempre tem alguma coisa interessante. Hoje tinha a parede que a minha vizinha derrubou com a traseira do carro. Mas não vou publicar essa foto, não vou levar essa fofoca ao extremo da imagem.Hamamatsu shi - Japão. Foto: Nei Schimada

O grande lance de caminhar pode até ser ir caminhar e suar e saúde, blablablá. Mas o melhor mesmo é ter a câmera esperando um clique, um olhar, uma cor. E te digo: às cinco da manhã tem uma luz muito boa.

Além do que todo provérbio existe porque é verdade e está provado o que ele contém em rima, palavras e sabedorias: Paguei com a boca. Eu que achava que caminhar era uma besteira urbanóide para vender tênis de marca. Descobri que é legal e faz a diferença mesmo.

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros. Leia mais em: 
A GALÁXIA DOS AFÔNICOS
NATSUKASHI
SILÊNCIOS
O PATO
JANELA DE COZINHA
LA MISTICA, CAPISCI?
ESPERANDO ROSA
ANHANGABAÚ
FELIZ ANIVERSÁRIO, MINHA TERRA

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