18 de mai de 2009

ROBERTOS, CARLOS

Povos de São Paulo, tribos do mundo

Por Nei Schimada

Naquela época do ano que de noite ainda é aquele friozinho aconchegante e de dia um sol confortável. As crianças no quintal e as duas na cozinha.
- Pode por mais pimenta, mãe, ele gosta bem quente.
Alzira e a mãe preparavam o almoço do dia dos pais com o zelo redobrado. Roberto telefonou dizendo que já estava no Espírito Santo, garantindo que chegava pro almoço.
- Chegou, mãe!
Encostou o bruto em frente ao sobrado com as seis criaturas esperando na calçada, em frente ao portão, Alzira, quatro filhos e a sogra. Beijos, abraços e Alzira limpando os olhos no avental.
Almoçaram com Roberto contando da batida na BR na altura de Ilhéus, o fuzuê das viaturas da rodoviária, bombeiros, a carga contrabandeada que sumira na multidão.
- Filho, vai na boléia e traz a caixa azul grande.
Cd player, mixer, games, tênis importado, presente pra todo mundo. Ganhou dos filhos uma camisa da Seleção.
- O tênis eu trouxe de encomenda, filho, deixa lá.
Alzira olhou para a mãe. A velha entendeu, pegou as crianças e foram todos para a praça com a promessa de sorvete e algodão doce. Fizeram daquele amor de gestos rápidos, respiração forte, grandes gotas de suor pelo quarto. Gritos filtrados na mordida na mão. Movimentos contínuos irracionais. As roupas em algum lugar entre o corredor e o travesseiro.
- Pega uma água na cozinha pra sua Zira, pega?
Nem respondeu. Saiu da cama nu e foi para a cozinha. Aproveitou, deu uma passada na geladeira e pegou uma lata de cerveja.
- O senhor foi descalço pra cozinha e vai subir na cama de pé sujo?
Nesse momento, Roberto percebeu que realmente estava de volta, tinha chegado em casa. Não respondeu. Entregou o copo d'água e abriu a lata.
- Vou para a várzea.
Tomou um banho, vestiu uma roupa, deu um beijo na mulher e entrou no carro.
- Vou de fusquinha, Zira.
De domingo, sem trânsito, de Itaquera à Cidade Dutra dá pra fazer em 40 minutos - pensou e acelerou.

II
Deu dois toques na buzina em frente ao portão de ferro. um rapaz veio atender, acenou amigavelmente e Roberto guardou o Fusca dentro da oficina. Portão fechado, corrente, cadeado. Quando saiu do carro, Carlos, o rapaz, o agarrou por trás e beijou-lhe na boca com fúria. Fizeram amor ali no capô do Fusca. Depois fizeram no sofá e depois na cama.
- Beto, traz uma água pro teu Cacá, traz?
Nem respondeu, saiu da cama nu e foi para a cozinha. Aproveitou, deu uma passada na geladeira e pegou uma lata de cerveja.
- O senhor foi descalço pra cozinha e vai subir na cama de pé sujo?
Nesse momento, Roberto percebeu que realmente estava de volta.

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros. Leia mais em:
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