12 de out de 2009

DA AVENIDA IPIRANGA À PEQUENA BENÇÃO PELAS COLHEITAS

O Nei Schimada voltou!!! Depois de uma breve pausa para meditar no topo do Monte Fuji, o Nei retoma sua participação no blog e, melhor ainda, volta a fazer o que mais gosta: seu trabalho como luthier, dedicadíssimo aos pianos lá no Japão.
Estamos duplamente felizes!
Doozo Schimada!!!

Povos de São Paulo, tribos do mundo


Por Nei Schimada

A jornalista Flaviana Serafim um dia me confidenciou por e-mail que tenta escrever pelas vias da ficção – ou romancear a realidade – mas não consegue porque acha que não tem lírica suficientemente para tal.

Provou estar enganada quando conta da sua raiva na pequena e ousada aventura de atravessar a Avenida Ipiranga na faixa de pedestres diante de motoristas jurássicos no texto “A Paz Começa Dentro de Nós”, publicado aqui no blog no dia dois de outubro.

Ficou bastante claro que as loas da mídia mundial ao Brasil, sua pujança e seu sonho olímpico são apenas loas. A realidade nos estapeia e prova que, sim, o país precisa de pratos de comida, remédios, livros e muita educação antes de fazer uma festinha que já está negociada antes de assentar o primeiro tijolo. Educação básica do tipo “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”.

Não que não tenha motoristas mal educados e sedentos por sangue nas ruas das metrópoles desenvolvidas. Mas a mãe estava na faixa de pedestres e de mãos dadas com a filha.

Não chega a ser uma cena de Hitchcock, mas está à sombra de Brian De Palma.

Todo ano é igual. O camponês japonês faz um matsuri para a chegada da primavera, prepara e planta o arroz que se desenvolve pelo verão, o colhe em setembro, faz mais um matsuri comemorando a fartura da colheita e a chegada do outono. Matsuris são as festividades nas ruas. São como pequenos carnavais. O da primavera funciona como uma válvula de escape para meses de confinamento e relativa sobriedade invernal. Os bairros em Hamamatsu disputam entre si qual o mais belo carro alegórico numa parada no centro da cidade e numa briga de pipas enormes nos céus das dunas na praia de Nakatajima. São três dias onde o saquê rola na turma do funil.

Em outras cidades e regiões, as festividades também são ao redor da primavera, mas com suas características locais.

Antes do retorno dos ocidentais na era Meiji – século 19 – o ano novo japonês era comemorado em março, justamente no fim do inverno. Com a esquadra negra do Almirante Perry, chegaram o calendário ocidental, a queda do feudalismo e a revolução industrial.

O modus vivendi japonês baseando seu calendário na colheita do arroz e, conseqüentemente, às estações do ano, carregam em si uma disciplina rígida que migra para outros aspectos da vida cotidiana.

Observando isso por anos, começo a crer que, de certa forma, o homem cria-se e educa-se através das manifestações geográficas ao redor. A geografia faz o homem e vice-versa. As interações entre o micro e o macrocosmo devem ser harmoniosas. Não entendo - mas compreendo - o fato do motorista paulistano ter um tiranossauro rex em si, ou o instinto maternal fazer com a que a mulher pense em atirar um objeto contra um carro. Numa cidade onde temos as quatro estações entre o nascer e o pôr do sol, tudo é factível.

Talvez a metereologia paulistana caótica atue sobre a psique de seus habitantes.

Fica óbvio também que precisamos plainar a nossa topografia sócio-cultural, ou seremos ricos e poderosos líderes numa insólita américa latina de estóicos analfabetos infelizes. Pintaremos nosso sucesso em bela moldura para cegos.


Imagens do matsuri em Nakano machi, Hamatsu shi. Fotos de Nei Schimada

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros. Leia mais em:
A SEGUNDA NUNCA SERÁ A PRIMEIRA
IDIOMAS, IPSIS LITTERIS

DE CÁ PRA LÁ, BALANGANDO
NA PRÓXIMA QUARTA E OUTRAS DA SEMANA
AMIGOS, OS DISCOS, OS VINHOS – OS CARAS IMORTAIS
BOM BOM
A CORRIDA DE SÃO SILVRESTRE – OBSCURAS ORIGENS
TEM ESSA E OUTRAS PIORES
PAULISTANO QUE É PAULISTANO NÃO CHORA
ROBERTOS, CARLOS
TODO IMIGRANTE É A PULGA ATRÁS DA ORELHA

4 comentários:

  1. Mario Sergio Martins12 de outubro de 2009 16:16

    Não cara é mal caratismo, ignorancia e falta de educação...Um suco maldito.!

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  2. Sampa é loucura...Isto aqui não tem concerto.

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  3. Elvis,o Homem de Neandertal13 de outubro de 2009 19:35

    No Brasil ou no Japão.Nos tempos da caverna ,época que o homem reverenciava a natureza porque sentia medo do caos,ou na pos-mordenidade.Ao passar do tempo o humano se maqueou com a religião,a política,a moral,etc.No entanto para além de bem e mal o homem é apenas um animal.Sinto muito por não ser humanista e vomitar as minhas loucuras para o mundo.

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  4. Carlos Aires Miguel16 de outubro de 2009 16:52

    Que organização em...Aqui acho que em mil anos.

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