7 de jul de 2009

AMIGOS, OS DISCOS, OS VINHOS – OS CARAS IMORTAIS

Povos de São Paulo, tribos do mundo

Por Nei Schimada

image Luiz Felipe, o Vespa, sempre dizia que, quando o céu estava alaranjado e logo em seguida ficava lilás, era porque algo muito interessante ia acontecer logo depois do céu lilás ficar azul escuro, até as luzes da cidade acenderem.
Vespa era um desses profetas bíblicos esquecidos pelo deserto, pelas escrituras e por todos nós. Mas aparecia dobrando a esquina pulando e cantando suas odes ao amor, ao mundo, a plenos pulmões como um barítono louco e sagrado. Ríamos muito porque éramos todos imortais e poderosos.
Nasceu no norte de Portugal. De Lisboa, só sabia dos dez dias na casa do tio que conheceu antes de embarcar para o Brasil onde levou o sotaque e a estranha mania de tomar banho apenas nos sábados.
Foi o Vespa quem me mostrou pela primeira vez um disco do Pat Metheny Group e, creiam, ouvir a faixa “Are You Going With Me?” mudou a minha forma de pensar música.
Paulão tinha duas cadelas que odiavam todas as visitas, nunca nos morderam, mas era sempre ruidosa a nossa recepção.
E imagine se a vizinhança toda não nos odiava, íamos à casa dele porque ele tocava bateria e tínhamos uma banda de rock. A pior de todo o século passado.
Mas também tínhamos muita criatividade e aptidão para eternos papos furados. Em várias madrugadas, ficávamos bebendo vinho chileno e discutindo os filmes do Woody Allen ou as caras e trejeitos do Peter Sellers que o Paulão adorava imitar.
Eu gostava de olhar para o peixe beta que ele tinha, e ele dizia que o peixe poderia morrer de estresse caso eu ficasse instigando-o. O peixe não morreu com a minha cara o encarando, mas acredito que contribui para isso.
Foi na casa dele que ouvi pela primeira vez o disco “Time Out”, do The Dave Brubeck Quartet, o disco que não mudou a minha forma de pensar música, mas de vê-la.
Com este disco, descobri que em certas músicas as notas não são apenas audíveis, mas visíveis.

Muita gente não sabe, mas para os roqueiros dos anos 70 e 80, havia uma rixa entre quem curtia Led Zeppelin e Deep Purple. Eu era – ainda sou – ledzeppelinmaníaco. Para rivalizar, conheci Fernando Cea, deeppurplezaço, ele e eu temos gratas coincidências pela vida.
Na infância, ambos morávamos no centro de São Paulo, os pais dele tinham uma pensão ali no Parque Dom Pedro II, numa travessa da Rua 25 de Março. A minha avó também era dona de pensão numa travessa da 25.
Ele começou a se interessar por arte por causa de dois irmãos nikeis que moravam na pensão e que mostravam livros de arte, as gravuras e histórias dos pintores.
Eu comecei a me interessar por literatura por causa de um antigo namorado uruguayo comunista de minha tia, que sempre me mostrava Millôr Fernandes, Quino e Chico Buarque.
Nos alfabetizamos na mesma escola, no mesmo ano, no mesmo corredor, com duas professoras diferentes no Externato Rainha da Paz, na baixada do Glicério. Nunca nos vimos, mas lembramos com carinho do Circo Garcia que ficou uma temporada num terreno baldio em frente à escola.
Anos depois, num primeiro de maio que caiu num domingo, houve uma partida de futebol entre duas seleções paulistas, um time dos melhores jogadores do interior e outro da capital. A partida foi com portões aberto no Pacaembu.
Creiam, não é mentira, eu estava nos Gaviões da Fiel com a camisa do Flamengo e ele estava na Torcida Independente do São Paulo, diametralmente oposto a mim, nas numeradas do outro lado, com a camisa do Vasco da Gama.
Anos depois, fomos nos conhecer no Colégio de São Bento, e hoje ele mora em Madrid e eu no Japão, e há mais de dez anos não nos vemos. Mas nos sabemos.

O mais interessante de lembrar desses amigos é saber que havia um entre eles que já vivia o futuro e, quando o futuro chegou, ele começou a viver no passado e trancou-se em si, num grande enigma silencioso.
Todos nós queríamos adquirir talento e conhecimento e ele já os tinha. Não sabíamos que o talento era um segredo sutil que as pessoas carregavam e que era impossível decifrarmos. Não dava para adquirir nos livros, nos grandes autores ou nos discos inesquecíveis. O talento exalava-se a cada audição, o engrandecia, lá estava e o ouvíamos dedilhando o piano com a graça de mestres que estavam em céus inconcebíveis para nossa reles mortalidade.
Se tenho um motivo para arrepender-me de ter saído do Brasil e nunca ter voltado em definitivo, é por causa dele, de sua tristeza que nos abraçou e nos distanciou. De talvez não ter dado um grito para acordá-lo na hora certa. Os otimistas dizem que nunca é tarde, os realistas dizem que já não é tão cedo.
Ele é o único que não direi o nome porque ele não está feliz. Se estivesse, todos nós o aplaudiríamos em todos os discos e vinhos, nós e ele, os caras imortais.

Tem muito mais gente. Mas tenho que falar de mais um. É o Glads.
Não me lembro de vê-lo sentado por mais de dez minutos. Aliás, uma forte lembrança é de quando saíamos do Teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro, e íamos caminhando até perto do Ibirapuera. Isso dá uns bons quilômetros.
Certa vez, num desses retornos esporádicos que fiz ao Brasil, ele me disse que eu estava mais zen, mais maduro. Pensei nisso e descobri que não, ele é quem estava mais chão, menos voador.
Glads tem pés de Mercúrio - asinhas no calcanhar - e não sabe. Sua ansiedade atravessa os bits e bips via satélite e, vez por outra, cai no um colo e eu, impaciente e neurastênico, nunca sei o que fazer com isso.
É uma força da natureza. Por anos, viu todos esses que citei crescerem, sumirem, voltarem, enlouquecerem. E também a mim. E é por causa dele que posso contar essa história.
É ele quem edita esse blog junto com a Flaviana. Ele faz isso por causa desse amor pela cidade, pelo meu amor, pelo nosso amor. São Paulo precisa ser amada e é isso que nós queremos.
E tudo que sei está encravado nesse DNA cultural de ser brasileiro e paulistano, nesta síntese eterna que sempre estará ao meu redor. Ainda bem.

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros.

Clique e ouça “Are you going with me?”, com Pat Metheny

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3 comentários:

  1. Mario Hanashiro Ymamura8 de julho de 2009 19:48

    Ai isto sim...escrever largamente escrever...

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  2. Gladstone Barreto10 de julho de 2009 22:18

    Encontrei o vespa varias veses ele dançava Dabke no Instituto Arabe Sírio...

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  3. Matheus Ronderville Caetano10 de julho de 2009 22:26

    Também estudei no São Bento, 65. Pat Metheny Group
    The Dave Brubeck Quartet,são os mestres. Mas são passado hoje em dia tem caras incriveis fazendo coisas maravilhosas é só investigar e não se apegar...

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