Arte & Cultura
Por Floh Murano

O século XIX gerou várias mudanças no cenário europeu que foram decorrentes da Revolução Industrial e das revoluções populares que vinham acontecendo desde o séc. XVIII. Os trens transformaram o conceito de velocidade, as fábricas o de tempo, e a iluminação artificial possibilitou a vida boêmia. A Paris da época era vibrante, alegre e estava em constante movimento. Sua ascendente classe média (nouveau riche) passou a ditar o gosto e as diversões.
O reflexo deste cenário na arte resultou no movimento realista, que buscou retratar o dia-a-dia do homem comum, a banalidade do cotidiano, o trabalho na cidade ou no campo, a espera pelo bonde ou o trem, a boemia, a prostituição, enfim, a realidade das ruas no momento presente.
Edouard Manet (1832-1883) foi fruto dessas transformações, um precursor que trouxe em sua arte todas as inovações técnicas e temáticas que inspiraram a modernidade que estaria por vir estando atrelado à estética naturalista1, e lutando para ser aceito nos salões oficiais e compreendido pela sociedade da época. Quando seu quadro “Olympia” foi exibido no Salão de Paris de 1865, provocou um grande escândalo entre os críticos, que o julgaram como “arte indecente”. As pessoas gargalhavam olhando para o quadro imaginando se aquilo era uma paródia a um tema clássico ou se era de fato um retrato.
“O fato da tela (Olympia) não ter sido destruída, se deve unicamente aos cuidados tomados pela administração”[1]. Olympia foi baseada na “Vênus de Urbino” de Ticiano, de 1538. A composição de Manet era clássica e com cores refinadas, mas a execução e o tema eram contemporâneos. A forma que Manet pintou também era incompreensível para os padrões da época: ele criou uma pintura “chapada” dando a impressão de que Olympia tivesse sido colada à tela. As tintas pareciam que não haviam sido misturadas, dando um aspecto sujo à composição. A nudez de
Olympia foi cruamente representada, diferentemente dos nus suaves e belos da época.
Manet tinha uma forma especial de trabalhar a cor: ele fazia com que sua qualidade se identificasse com a quantidade de luz, e assim conseguia criar o efeito chiaro-scuro clássico. “Tudo se apresentava à vista através da cor”[2], ou seja, utilizando-a ele conseguia ressaltar as partes que queria que fossem vistas em primeiro plano; criava uma hierarquia visual ditada pela cor e pelo seu efeito chiaro-scuro, onde a sombra era apenas uma mancha que se justapunha às outras cores, mais ou menos luminosas.
A reação popular deixou Manet arrasado, pois ele queria ser aceito, queria expor nos salões e desejava que suas inovações mudassem a pintura tradicional francesa. No entanto, Olympia passara dos limites. Ela não era Eva nem Vênus, mas sim uma mulher contemporânea, uma proletária, que desavergonhadamente posava nua oferecendo-se ao espectador. Seu nome verdadeiro era Victorine Meurent, mas Manet a chamava de Olympia. Victorine, importante figura na vida de Manet, ficou com o mérito de ter sido a modelo dos dois maiores ícones de sua pintura: “Almoço na Relva” e Olympia[3].
Olhando para o quadro atualmente, é difícil de imaginar o porquê de tanta polêmica na época. Mas num tempo em que a hipocrisia do conservadorismo reinava, e que o mundo da boemia era rechaçado pelas pudicas damas da sociedade e suas famílias conservadoras, que preferiam acreditar que o mundo profano não existia, aparece um quadro que retrata justamente a figura mais execrada: a cortesã. Deitada em pose de deusa e encarando quem a olha com ares serenos, Olympia incomoda, pois ela, além de sensual, é convidativa.
As cores fortes e o contraste do chiaro-scuro fazem com que Olympia saia do quadro e traga o espectador ao seu leito. Como uma prostituta ousaria ser representada como uma Vênus? Olympia encara, provoca, espera, mostra-se e seduz. Ela está nua e ornamentada: uma pulseira de ouro, um tamanco (pois o outro já escorregou na cama), uma fita preta no pescoço, e um hibisco (flor que simboliza o amor e a sexualidade) no cabelo. Sua criada negra lhe traz flores, provavelmente mandadas por um de seus amantes. Aos seus pés um gato preto.
Contrastando propositalmente com a pele branca de Olympia, o fundo, a serva, e o gato praticamente se fundem num tom escuro. Tem-se a impressão de haver uma luz sobre Olympia, que também incide sobre os lençóis, a roupa da criada e as flores. Na verdade, não há uma luz sobre essas partes e, sim, a cor faz o destaque, e seu tratamento dá qualidade à luz e sugere o que estaria no primeiro plano. Através do olhar de Olympia, pode-se sentir a presença de um espectador ausente que estaria, hipoteticamente, sendo recebido por ela.
Manet não somente expôs a prostituta aos olhos do mundo, mas transformou-a em deusa. E isto era uma blasfêmia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BROMBERT, Beth Archer: Edouard Manet – Rebelde de Casaca; tradução de José Guilherme Correia – Rio de Janeiro; Editora Record 1998.
ARGAN, Giulio Carlo: Arte Moderna- Do Iluminismo aos Movimentos Contemporâneos. Cia. das Letras, 10ª reimpressão, Trad. Denise Bottmanne Federico Carotti.
Coleção Gênios da Pintura, Edouard Manet; Vol. 10, SP Abril, 1974.
Webgrafia:
Mary Elizabeth Williams http://archive.salon.com/ent/masterpiece/2002/05/13/olympia/index.html
Filmografia:
Olympia - O Choque do Nu; Grandes Séries: Choque Cultural; GNT
1-
Denomina-se naturalismo o movimento artístico que se propõe a empreender a representação fiel e não idealizada da realidade, despojada de todo juízo moral, e vê a obra de arte como uma "fatia da vida". O ideólogo da estética naturalista foi o escritor francês Émile Zola, cujo ensaio intitulado "Le Roman expérimental" (1880 "O romance experimental") foi entendido como manifesto literário da escola. (Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda)
*Floh Murano é arquiteta e históriadora da arte, colaboradora da seção Arte & Cultura
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